Ao integrar o primeiro volume da Antologia de Literatura Contemporânea ‘Alma de Mar’, editado em 2021 pela Chiado Books, Magda Franco faz-nos uma demonstração evidente do ecletismo que caracteriza a sua escrita. Para além da criação de textos motivacionais e de cariz científico com que nos presenteou anteriormente, guia-nos agora através da leveza genuína da prosa poética, numa descrição inusitada da inter-relação entre o ser humano e o mar, como só um ilhéu pode conceber. 

“Oh mar de azul profundo, levas os homens da minha terra, à noite, em embarcações coloridas que deslizam nas águas serenas do Caniçal. Partem de pés descalços, calças enroladas até ao joelho e pele queimada pelo sol, em busca de peixe.
Na praia, ficam as mulheres, umas com crianças ao colo despedem-se dos pais, outras, de terço nas mãos, rezam pelo regresso dos homens, implorando a Deus que o mar não engula as suas almas.
No mar, caem as gotas de água que rolam dos meus olhos, misturam-se com a água salgada que bate nos pés das mulheres e cobrem os seus joelhos de espuma branca. Neste momento, a esperança e o medo encontram-se num abraço profundo, deixando os que ficam e os que vão numa dor que só cessa, quando as almas se reencontrarem.
Oh mar, que guardas tantas vidas e sentes o meu corpo mergulhado em ti, molha a minha alma e lava-a dos medos que me assolam e aprisionam os meus olhos, na linha do horizonte, à espera do barco que tarda em chegar.
Perco-me na imensidão da água e, durante um tempo fugidio, fico sentada nas pedras da praia até à chegada da embarcação, que rasga as ondas, longe da costa, num silêncio ensurdecedor.”

Texto: Magda Franco

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *